sábado, março 17, 2007

Pílula do dia seguinte. Uma infeliz questão de gênero (1)


(E Deus) "Disse também à mulher: Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio." (Gêneses 3:16)

Porque continuamos chamando a Contracepção de Emergência de Pílula do dia seguinte?

No último mês vimos várias reportagens na mídia sobre a disponibilização da Contracepção de Emergência pelos Centros de Saúde da Secretaria de Saúde no DF (SES). Junto com a notícia, veio a desinformação e o preconceito. Mesmo usando as vezes o termo correto, Contracepção de Emergência (CE), imediatamente é "explicado" que é mais conhecida como pílula do dia seguinte.
O que essa expressão significa?
Significa que a mulher pode aprontar todas e no dia seguinte basta tomar uma pílula que estará zerada. Esse é o preconceito que o termo traz em suas entranhas. Em nenhum momento o termo pílula do dia seguinte educa ou informa, apenas lembra a mulher que o que ela fez foi errado.
A mulher não pode esperar o "dia seguinte" para usar a Contracepção de Emergência. Quando usado nas primeiras 12 horas após a relação sexual a proteção será de 97%. Os 3% de falha se deve ao fato de que, se a mulher tiver relação no dia que ovular, e essa probabilidade é de 3%, a CE não fará mais efeito. Assim como todos os outros contraceptivos, a CE atua impedindo o encontro do óvulo com o espermatozóide, preferencialmente, impedindo que a mulher ovule.
A grande preocupação das reportagens que usam o termo pílula do dia seguinte é deixar claro os supostos riscos (?) e a necessidade de controle do seu uso (?). Na verdade essa é uma forma disfarçada de negar a mulher o direito de exercer sua sexualidade, pois a mulher tem que PAGAR PELO PECADO DA RELAÇÃO SEXUAL com uma gravidez. Daí toda a reação contra a CE. Não esqueçamos que a mesma reação ocorreu contra o contraceptivo oral quando foi lançado na década de 60. Era coisa do demônio, e até hoje continua sendo pecado usa-lo. Para essas MESMAS pessoas é um absurdo a mulher ter uma relação sexual, e da mesma forma que o homem, não sofrer nenhuma penalidade. "Onde já se viu isso? Só pode ser o fim do mundo."
A última reportagem do Correio Brasiliense do dia 15 de março, páginas 41 e 42, sobre a disponibilização da contracepção de emergência nos Centros de Saúde do DF e inclusive pelo Adolescentro, confirma meu ponto de vista. As reportagens, como sempre, mais aterrorizam que informam. É impossível para um adolescente ler a reportagem e ficar sabendo como tomar a Contracepção de Emergência caso ocorra: (a) um acidente com a camisinha, (b) tenha uma relação desprotegida porque não planejou (64% das vezes) ou porque (c) sofreu um estupro. No entanto o adolescente fica sabendo que seu uso pode trazer sérios problemas hormonais, que é necessário uma consulta médica, para pega-lo, o adolescente deverá responder um questionário e não será necessário nem escrever o nome e que é mais, MUITO MAIS indicado no caso de estupro, e finalmente, o Remédio é polêmico.
Haja desinformações utilizando nomes de profissionais, o que dá uma conotação de verdade, inclusive o meu nome. De tudo que falei durante uma hora, foi resumido em uma frase totalmente fora de contexto, e bem idiota. "É cada vez maior o número de mães jovens no Distrito Federal, e isso gera problemas sociais, principalmente nas classes mais baixas".
É justamente o inverso. As mulheres pobres, com baixa escolaridade e excluídas são as mais prejudicadas, pois não é a gravidez não planejada que causa problemas sociais, mas justamente o inverso. As adolescentes da classe média, que têm a informação, que são filhas das pessoas que levantam as bandeiras contra a CE de forma direta ou disfarçada, utilizam a CE e engravidam bem menos, como a própria reportagem apontou: 9% no Plano Piloto e 25% na Ceilândia.
Durma com uma coisa dessas! Aliás, não durma, leia a próxima postagem.

Valdi Craveiro Bezerra

2 comentários:

Waldir disse...

Adorei essa postagem. Foi ótima. Realmente, é impressionante como existe preconceito em relação a CE e pouca informação. Tem uma penca de pessoas que acreditam que ela é abortiva, que faz muito mal à saúde e com todas as conotações negativas do termo errado - pílula do dia seguinte. O pior é que a imprensa, em vez de diminuir as dúvidas e informar, ela aumenta as dúvidas e passa a informação impregnada de preconceito. Como se essa realidade fosse muito distante deles !!!
Bom, o comentário é mais para te parabenizar. Adorei mesmo !!!!!!
Beijão
Waldizinho

Jullia disse...

É óbvio que quem detém a comunicação constrói uma realidade de acordo com seu interesse,OU, por pura falta de interesse. Isso me fez lembar uma frase lida há algum tempo "A política e a religião movem os homens como bonecos nos teatros"; com certeza devemos informar, fazer saber, àqueles que ficam a mercê de reportagens tão fora da realidade. Acompanhar a história e participar dela é dever de todos nós, imprescindível aos que assumem o papel de levar notícias e informações às pessoas. Mas, enquanto essa ficha não cai,fico torcendo e garimpando contribuições tão reais como esta.
Parabéns!!Vou passar adiante!